domingo, 4 de maio de 2008

Desempregados buscam fontes alternativas de renda

Mônica Bichara

Apesar de o emprego formal ter batido recorde no primeiro trimestre do ano em todo o país, obtendo o melhor desempenho desde o início da apuração do Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged), em 1992, com 39% de crescimento em relação ao mesmo período do ano passado, muita gente ainda enfrenta o desemprego. Por falta de oportunidade ou por opção, o jeito é apelar para fontes alternativas de renda como a produção de doces e salgados, bombons finos, artesanatos, ou a venda de porta em porta de cosméticos e confecções. Uma saída que pode representar ganhos iguais ou até superiores aos de um emprego formal.


É o caso da desempregada Simone Selma dos Santos, mãe de três filhos, que para se manter ajuda a amiga Sônia Muniz a vender lembranças de aniversário infantil. Elas transformam a entrada lateral da loja Le Biscuit (da Rua do Paraíso, no centro da cidade) numa verdadeira vitrine para as coloridas cestinhas, lápis e piruliteiras que produzem com emborrachados. Com preços que variam de R$5 a R$10 a dúzia, elas garantem a sobrevivência e a manutenção dos filhos. Para complementar, vendem também balas de coco e biscoito de goma.


“Com 35 anos de idade já não consigo mais emprego em Salvador”, constata Simone, contando que foi atropelada por um carro que desceu a ladeira descontrolado e não lhe ajudou sequer com algum dinheiro para os remédios.


Sônia revela que o movimento é muito variado, a depender do dia da semana e do mês. “Tem dias que não vendemos quase nada, mas tem outros que dá para faturar melhor”, diz, apontando o mês de dezembro como o de melhores vendas para o segmento. As balas de coco já tiveram boa saída, mas muitos aprenderam a receita trabalhando com ela e viraram concorrentes. “Outros aprenderam com Ana Maria Braga e estão por aí vendendo, mas não tem a mesma qualidade”, gaba-se.


Simone e Sônia produzem em casa, mas também aproveitam o tempo que ficam na rua para confeccionar mais lembranças, aos olhos dos clientes. A mercadoria e as caixas utilizadas como tabuleiro são guardadas em um depósito na mesma rua, o que evita o leva-e-traz de ônibus. Elas reconhecem que o trabalho autônomo não tem garantias nem direitos trabalhistas, mas foi a forma que encontraram para enfrentar a falta de vagas no mercado.


Carimã - É também nas ruas que Luís Oliveira, de 41 anos, tira o sustento da família. Desempregado há cerca de oito anos – “já perdi as contas” –, ele, que trabalhava fazendo serviços gerais, arma há três anos um tabuleiro improvisado com compensado em pleno Campo Grande, onde expõe o que consegue comprar com melhor preço na Ceasa: carimã, milho verde, feijão-de-corda e coco. Pai de três filhos, acorda às 4h e sai de casa, no Cabula, às 5h em direção à feira, no CIA (Centro Industrial de Aratu). De lá segue para o ponto ao lado da Procuradoria Geral do Estado (PGE), onde trabalha até próximo das 19h.


“Tiro na faixa de um salário mínimo por mês. Sei que é pouco, mas pelo menos não estou parado e sustento meus filhos”, conforma-se Luís, que ainda tem esperança de conseguir um emprego com carteira assinada e todos os direitos assegurados.


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Artista plástico vende pinturas nas ruas

Viver da própria arte foi a escolha feita pelo artista plástico Obá, que todos os dias, chova ou faça sol, instala-se na fachada do Edifício Bráulio Xavier, na Rua Chile, com suas pinturas feitas a dedo em azulejos, que custam R$5. Nos dias fracos ele vende de 10 a 15 trabalhos, entre paisagens de Salvador e escudos de time de futebol. “Não tenho do que reclamar, porque vivo do que gosto. Acho que não conseguiria ter um emprego formal, num ambiente fechado”, confessa.


Obá só fica triste ao constatar que 95% dos seus trabalhos são adquiridos por turistas, que levam as paisagens da Bahia, com a assinatura do artista, para todas as partes do mundo. “Os baianos procuram paisagens de outros estados, não valorizam as nossas praias e os cartões-postais”, diz decepcionado, acrescentando que a mídia também não dá espaço para as artes plásticas no país. Por conta dessa preferência, os meses de alta estação são os de melhores vendas para o artista, que chega a faturar o dobro quando o número de turistas cresce na cidade.


Até os torcedores do Bahia e do Vitória passam batidos pelos azulejos com os escudos dos seus times, enquanto os do Corinthians, São Paulo e Flamengo lideram as vendas. As paisagens mais vendidas, segundo Obá, são Farol da Barra, Elevador Lacerda e Forte de São Marcelo. Ele chega cedo ao “batente”, por volta das 6h30, e fica até o pôr-do-sol. Ali mesmo vai pintando os azulejos, diante de olhares curiosos, com a habilidade de quem domina a técnica há muitos anos. Uma bancada da fachada do prédio serve de cadeira e galeria a céu aberto, onde expõe os quadros ao público passante.


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Bombons ajudam na renda de universitária


Em um rápido curso oferecido por uma loja de produtos para festas, no Centro de Salvador, a estudante universitária Monalisa Conceição dos Santos, de 21 anos, aprendeu a fazer bombons trufados. Ensinou os macetes para a mãe e a irmã, que a ajudam a produzir centenas de unidades, de diversos sabores, que vende sobretudo para os colegas, professores e funcionários da Uneb, onde cursa nutrição. Em pouco tempo, as encomendas começaram a aparecer para festas. “Muitos pedem para lembrança de aniversário”, diz, frisando que a renda ajuda a se manter enquanto estuda, até que apareça um emprego compatível com os horários das aulas.


Com a venda dos bombons, que variam de R$1 a R$1,50, a depender do sabor (o preço é menor para pedidos em quantidade), Monalisa cobre despesas com transporte, alimentação na rua, xerox de livros e viagens de final de semana. “Foi uma forma que encontrei de ajudar minha mãe com as despesas e está dando certo. Não gosto de ficar parada, sem ter meu dinheiro”, diz, admitindo que já pensa em confeccionar uma embalagem própria para as trufas.


Por enquanto, os bombons são embalados com papéis vendidos nas lojas de produtos para festas, identificando apenas os sabores (brigadeiro, maracujá, abacaxi, cupuaçu, morango, limão, ameixa, casadinho e coco). Monalisa recebe encomendas pelo telefone 3285-5059.


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Sequilhos e biquínis garantem sustento


Trabalhar em casa foi a opção encontrada pela vendedora Jeane Fontes de Santana para continuar contribuindo com a renda familiar e dedicar mais tempo à família, desde que teve o primeiro filho, hoje com 8 anos. Ela sabia fazer sequilhos, biscoitos de goma, doces, tortas e salgados e viu que a saída estava nessa habilidade. “Se eu estivesse na rua como vendedora estava ganhando menos do que faturo hoje”, revela, computando que ainda teria despesas de transporte, alimentação, babá e transporte escolar para os filhos.


Ela só lamenta o fato de não ter direito a férias e outros direitos trabalhistas. O marido, Ezequiel, tem um emprego formal, o que dá tranqüilidade à mulher para abrir mão dessa segurança em nome de uma atenção maior aos dois filhos. Ele também contribui para escoar a produção de Jeane, levando os sequilhos e biscoitos feitos por ela, quando os filhos dormem, para vender no restaurante da empresa onde trabalha e em outros clientes. Nos finais de semana ela aceita também encomendas de bolos e doces para festas.


Desempregada há exatamente um ano, a representante comercial Ivanete Lopes, mãe de uma filha de 6 anos, não se fez de rogada e partiu para a venda de porta em porta de cosméticos e biquínis. Com dois catálogos de perfumes, cremes e maquiagens, e biquínis que compra de uma pronta-entrega, ela percorre repartições públicas, escolas e residências em busca de clientes.


“O faturamento ainda é menor que o do emprego anterior, mas já garante as principais despesas até aparecer um trabalho formal. Não posso é ficar parada, tenho que me virar, porque tenho uma filha para sustentar”, diz Ivanete. Ela sente falta da segurança de um emprego com carteira assinada, mas observa que não pode se dar ao luxo de cruzar os braços e esperar que um convite “caia do céu”.

fonte:www.correiodabahia.com.br

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