segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Relatórios de Sustentabilidade e suas surpresas

Orlando Lima (*)

No momento em que iniciamos o ano de 2009, nos preparamos para uma nova onda de Relatórios de Sustentabilidade das grandes empresas que vão relatar os avanços e recuos em sua performance nos temas críticos de sustentabilidade de suas atividades.

Muito se tem discutido sobre o nível de transparência dos Relatórios de Sustentabilidade divulgados pelas empresas em relação aos temas que foram (ou não foram) cobertos, à profundidade das informações e disponibilidade de indicadores quantitativos disponíveis, que permitam comparações entre empresas do mesmo ramo de atividades. É comum também a crítica do viés de marketing institucional desses relatórios, retratado em apresentação visual sofisticada, fotos pouco realistas e declarações elogiosas à empresa. De toda forma é absolutamente louvável o movimento crescente de divulgação de relatórios de sustentabilidade no mundo, demonstrando compromissos de grande quantidade de empresas com temas críticos para o futuro. No entanto, líderes de inúmeras organizações não governamentais internacionais, participando da Conferência Anual da GRI em Amsterdam em 2008, deixaram claro que esses relatórios apesar de benvindos, representam apenas um "piso" mínimo de informações a serem divulgadas e que a análise dos temas realmente críticos de sustentabilidade de cada empresa precisam ser analisados com mais informações que as divulgadas nos relatórios oficiais.

O que não é tão visível para os leitores dos Relatórios de Sustentabilidade é o riquíssimo processo que se passa dentro das empresas na sua jornada de preparação, em especial quando são elaborados não apenas para divulgação externa, mas também como verdadeiro instrumento de gestão do desempenho interno. A versão G3 da GRI (Global Reporting Initiative) disponibilizada em 2006 ajudou muito a tornar o relatório nesse tipo de instrumento, focando nos temas mais relevantes para os stakeholders, tornando o processo mais estratégico para a própria empresa.

A elaboração do Relatório de Sustentabilidade de acordo com a GRI, pode levar a um exercício que ajuda a empresa a avaliar e atualizar seu próprio conceito interno de sustentabilidade, reconciliando-o com as expectativas de seus stakeholders, com o papel que deseja ter no seu ramo de atividade, além de promover a educação em todos os níveis da organização. A divulgação anual do relatório gera uma pressão externa positiva sobre a empresa por melhorias contínuas do desempenho em sustentabilidade, que frequentemente vem acompanhadas por ganhos de produtividade e reduções de custos operacionais. Em conseqüência, a empresa aprimora seus processos de gestão dos temas relevantes nas áreas ambiental, social, econômica, de engajamento de stakeholders e de governança corporativa, através de instrumentos como benchmarking e indicadores de desempenho, cujas metas podem e devem fazer parte dos critérios de remuneração variável de seus executivos.

Empresas com operações internacionais, se vêem especialmente expostas à cobrança de stakeholders globais sobre seu desempenho em sustentabilidade e divulgação de sua performance segundo critérios reconhecidos internacionalmente como a GRI. Nesses casos a elaboração do Relatório de Sustentabilidade traz desafios adicionais, pela necessidade de incorporar as diferentes características de seus negócios, das regiões onde atua e diferentes culturas existentes dentro da empresa. Mas daí surgem também surpresas interessantes e empresas internacionais que passaram por processos de aquisição de empresas em outros países, demonstram ganhos inesperados. A elaboração global do Relatório de Sustentabilidade com foco na sua gestão estratégica mostrou-se um dos instrumentos mais efetivos de integração de novas empresas adquiridas. Uma expressão de um gestor internacional de uma empresa recentemente adquirida diz tudo: "A integração empresarial através da sustentabilidade é um instrumento transformador pois se faz em torno de valores e não de processos".

Mais do que isso, vivemos num mundo que estará cada vez mais absorvido com a busca de soluções para graves ameaças socioambientais como as mudanças climáticas, a emergência de uma nova economia de baixo carbono e uma nova matriz energética a nível global. Nesse contexto é absolutamente crítico que as empresas aprofundem seu conhecimento sobre esses e outros temas de sustentabilidade, incorporando-os em seus planos estratégicos. Não é demais afirmar que uma das melhores "portas de entrada" na gestão desses temas e preparação da empresa para os novos desafios é o desenvolvimento do Relatório de Sustentabilidade de acordo com o GRI como elemento central de mensuração de um Programa Estratégico de Sustentabilidade.

(*) Orlando Lima (o.goes@uol.com.br) é consultor em Estratégia e Gestão de Sustentabilidade, colunista fixo de Plurale em site e ex-Diretor de Desenvolvimento Sustentável da Vale

(Plurale)

http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/relatorios-de-sustentabilidade-e-suas-surpresas/

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